Solidariedade: reeducandos do “Caminhos da Justiça” doam contribuição à policial que adotou 5 filhos

Uma centena de reeducandos, assistidos e atendidos pelo programa Caminhos da Justiça, realizou um gesto que serve de exemplo para toda a sociedade potiguar e não somente para tempos de pandemia. Solidariedade, desprendimento e atenção com o outro estão presentes nesta ação. Sensibilizados com o gesto de amor da policial civil Flaviana Bezerra, que após atender a uma ocorrência de homicídio em agosto de 2018, decidiu adotar os cinco filhos da vítima do crime, registrado em Parnamirim, eles decidiram contribuir financeiramente com a profissional da segurança pública. A soma em dinheiro foi entregue pelo reeducando Manoel Bernardes em nome dos colegas, a esta mulher e mãe que não mediu consequências para adotar todo o grupo de irmãos e um neto. O ato ocorreu nessa quinta-feira (4), na 10ª Vara Criminal de Natal, unidade judiciária que tem à frente a juíza Lena Rocha, criadora e coordenadora do programa “Caminhos da Justiça”, do Poder Judiciário do RN, que apoia egressos do sistema penal e suas famílias, desde 1997.

A iniciativa serve para demonstrar que a sociedade pode se ajudar, se dar as mãos, de várias formas, cenário onde não há espaço para preconceito, intolerância nem apatia diante das adversidades. A entrega desta contribuição ocorreu com observância aos protocolos sanitários relacionados à Covid-19, sem aglomeração e com o uso de máscaras. Cada participante do programa doou espontaneamente o valor de R$ 5 e com tantas adesões foi possível reunir ao todo R$ 500, doados de forma fraterna à policial. Vendo à primeira vista, alguém poderia dizer que é pouco. Mas não é. Em um primeiro olhar, muitas cédulas de mesmo valor reunidas. Entre elas residem fortes traços de humanidade, pertencimento e altruísmo.

Para a coordenadora do “Caminhos da Justiça”, juíza Lena Rocha, estas são atitudes solidárias que se cruzam, se interligam. “O gesto dos reeducandos é de uma dignidade que serve de ensinamento aos seres humanos, pois são pessoas que também são vítimas e com muita sensibilidade enxergam a situação do semelhante, ajudando a quem foi vítima de outros”, salienta a magistrada.

Flaviana Bezerra conta que o gesto dos reeducandos lhe tocou, ao saber que todos quiseram contribuir e que a atitude deles em favor de uma policial e sua família mostra “a evolução de todos nós”. Fica na lembrança da mãe de cinco filhos a imagem de cada nota de R$ 5. “Tem uma simbologia nessas notas, um gesto de amor, de quem deu a volta por cima”, ressalta a policial. Cada um deles quis fazer parte de algo especial, transformador.

História transformadora

Esta é uma história que entrelaça dor e esperança, violência e amor. Flaviana atendeu ao caso de assassinato, há dois anos, e se deparou com uma realidade cruel para aquele grupo familiar. Meninas e garotos entre seis e 15 anos, à época, que haviam perdido a mãe um tempo antes e agora, o pai. Além disso, um bebê de colo, neto do chefe da família também estava presente à cena do crime.

Com apoio de outros policiais e de parentes, a agente de polícia conseguiu obter a guarda provisória das crianças e adolescentes em 2019. Abriu mão de muita coisa para cumprir uma missão para a vida toda. Desde o início, recorda que houve “identificação e confiança à primeira vista e muito carinho”. A profissional que todos os dias sai de casa para contribuir com a segurança das pessoas ressalta que agiu com cautela em relação aos sentimento dos filhos. “Meu sentimento é o da proteção, fazer o melhor por eles”.

Ser um exemplo e estímulo à adoção tardia é algo que Flaviana e sua decisão assertiva pretendem significar para a comunidade. Este foi um passo que supera o que geralmente ocorre em muitos casos. Ela não ignorou a situação, não virou as costas à situação que estava diante de si e foi adiante, muito além do que o senso comum poderia esperar. Fez a diferença de forma concreta na vida de seis pessoas, quando o comum é que esses tipos de episódios caiam no esquecimento, depois de um certo tempo. A opção foi dela mas a sociedade pode estar presente na luta que uma mulher decidiu abraçar com coragem.

E agora, no leque de apoios recebidos se insere o gesto concreto de pessoas que perderam muito, os reeducandos, comovidas com a demonstração de amor que não mediu esforços nem dificuldades para se materializar.

A mãe de cinco filhos, por escolha própria, diz testemunhar diversos gestos de cidadãos que se prontificam a ajudá-la. “Elas ligam, vêm na minha casa, meu telefone não para”, comenta. Pessoas sensibilizadas com o ato de amor incondicional. Mas ela precisou enfrentar incompreensões também. Chegou a ouvir de alguns que não deveria matriculá-las na escola pois elas não sabiam ler. Destaca que são só crianças, têm direitos, precisam de cuidados e lembra que o seu intuito foi fazer o certo, proteger crianças em situação de perigo. “Não foi um sentimento individual, identifiquei que é a minha família, e que Deus mandou uma nada convencional”, explica Flaviana sobre o que lhe levou a adotar uma família. “Não foi por acaso, vai dar certo”.

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